Em 1984, graças ao advento das botas de borracha superaderente, houve em todo o Rio uma verdadeira revolução nas escaladas de aderência e “agarrência”, tornando factíveis, do dia para a noite, vias até então consideradas impossíveis, e reduzindo o grau das vias já existentes.
A primeira e mais famosa das botas foi a espanhola “Firé”, do fabricante ”Boreal”. Aos poucos foram surgindo outras, como as da fábrica francesa “EB”. No entanto, este utensílio de escalada ainda podia ser considerado artigo de luxo entre os escaladores. Pouquíssimas pessoas o possuíam e os custos para se obter uma bota importada eram altíssimos.
Ocorreu então, em Petrópolis, uma verdadeira corrida para se fazer, inteiramente em livre, vias que contassem com um ou mais pontos de apoio: por esta razão, neste ano foram “mepados”, em Petrópolis, os paredões Giabra, Juliano Magalhães, a Face Norte do Mãe D’Água e o recém-conquistado Gato Negro, no mesmo ano, que marcou o início da escalada esportiva de graus elevados em blocos em Petrópolis.
A via Gato Negro (VIsup, 1984), com apenas 40 metros de extensão e pioneira neste estilo em Petrópolis, veio dar início a uma nova modalidade de escalada que surgia na cidade: a conquista de vias curtas, verticais e bem protegidas – em blocos e pequenas paredes – que representaria o boom da época. Nesta fase, foi-se demonstrando aos poucos que a escalada, além de possibilitar a ascensão de montanhas por suas faces rochosas, podia ser praticada, também, como uma atividade lúdica e atlética.
Em paralelo, continuava crescendo o conceito de que as paredes deveriam ser vencidas de forma o mais “livre” – sem a utilização de pontos de apoio artificiais – e “limpa” possível, conceito muito defendido na época e que conseguiu se consolidar, fazendo surgir uma ética amplamente discutida até nos dias de hoje. Podemos destacar André Ilha como o “pai” das escaladas “limpas” não só em Petrópolis, mas em todo o País. Além de condenar categoricamente a grampeação de fendas, André Ilha sugeria e praticava, cada vez mais, a utilização de pontos de ancoragem natural – a exemplo do que já vinha sendo feito, há muito tempo, em outros países, principalmente na Europa e nos Estados Unidos.
Ainda em 84, vários blocos e paredes viriam a ser conquistados no estilo limpo, empregando a técnica da escalada com proteções móveis e cultivando o conceito de mínimo impacto em paredes.
Iniciava-se o sepultamento da utilização de grandes “paliteiros” de grampos em artificiais fixos, assim como dos cabos-de-aço e outros artefatos altamente poluentes ao meio, além de esteticamente reprováveis.
O Diedro Casca de Cobra, o Paredão Caititu, a Variante Cidade das Formigas e a Fissura La Vaca firmavam a escalada em móvel como uma forte tendência a ser explorada a partir de então. O mito de que no Brasil não existiam fendas simplesmente foi demolido. De uma hora para outra, inúmeras fendas começaram a “surgir” e serem escaladas pelos mesmos precursores da escalada natural na cidade, principalmente por André Ilha.
Em relação ao acesso a material técnico, existia ainda uma grande dificuldade. Convivia-se da seguinte forma: um escalador tinha a corda; o outro, o baudrier; o outro, as costuras, e assim por diante. Na verdade, quase ninguém possuía o material completo.
Daquele tempo e até o início dos anos 90, devido ao pequeno número de escaladores ativos na cidade, olhando-se de longe para um grupo que escalava em determinada parede, ainda era possível identificá-lo simplesmente pela cor de sua mochila ou de sua corda.
Um fato também curioso foi quanto à utilização do capacete. Nos anos 70, era artigo obrigatório dentro da mochila de qualquer escalador. No entanto, entre a segunda metade dos anos 80 e a primeira metade dos anos 90, chegou a ser considerado artigo obsoleto e, à mentalidade vigente, podia distinguir um escalador “conservador” de um escalador “moderno”.
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