E o mais interessante foi que justamente os três escaladores candidatos, indicados pelo CEP – André Ilha, Antonio Carlos Magalhães e Dario dos Santos foram os detentores dos três primeiros lugares no curso de guias da FMERJ. O CEP passou a ser visto, em todo o cenário do montanhismo fluminense – mais especificamente no cenário carioca que já era o mais forte de todo o País – como um clube de elite, reunindo uma verdadeira nata da escalada. O Centro Excursionista Petropolitano e seus escaladores, desde então, começaram a despertar uma profunda admiração. Este fato, aliado às notícias das repetições que faziam das vias mais difíceis da época, além de suas próprias conquistas em Petrópolis e em outros centros de escalada, fez com que o CEP, antes olhado apenas com uma simpática complacência pelos escaladores cariocas, passasse a se tornar tremendamente respeitado por todos.
Enquanto isso, estavam despontando alguns escaladores locais promissores – Wanderlei, Aílton, César Delgado, entre outros – que formaram o embrião de uma nova e talentosa geração local, que depois veio a ser sucedida por outra e depois mais outras que, sem interrupções, fizeram com que Petrópolis nunca mais perdesse a credibilidade e passasse a ser reconhecida como uma cidade com um grande número de escaladores arrojados e talentosos.
Novas conquistas continuaram a serem feitas por esta turma, principalmente por André Ilha e Antonio Carlos Magalhães. Diversas vias, de dificuldade progressivamente mais elevada, foram concebidas, levando mais adiante o conceito de escalada limpa. Escaladas mais engajadas, difíceis e complexas, com o uso de material móvel sempre que possível, tornaram-se constantes.
Ao mesmo tempo, as principais e mais difíceis escaladas da época continuaram a ser sistematicamente repetidas em nome do CEP. André Ilha, Antonio Carlos Magalhães, Wanderlei Stumpf, entre outros, lançaram-se à conquista de diversas novas vias na cidade. Conquistas estas nas quais, desde muito cedo, passou-se a praticar, de forma inédita no País, a utilização de material móvel. Nuts, hexentrics e stoppers, num primeiro momento, culminando com os friends. Foram buscados novos lugares que possuíssem fendas, para que fossem conquistadas da forma mais limpa possível, não deixando marcas na rocha – um estilo puro e, por que não dizer, elegante.
A década de 70 terminou com esta transformação consolidada e com um número imenso, pelos padrões da época, de novas conquistas de grande qualidade. Duas delas ocorreram em Petrópolis, ambas com a marca de um escalador local, Wanderlei Stumpf: a Face Norte do Mãe D’Água [5º Vsup (A0(1)/VIIb)], em 1979, feita com André Ilha – uma escalada longa e exigente, toda protegida com grampos, conquistada num espírito bastante aventureiro para a época e de uma dificuldade bem elevada para os padrões vigentes; e a Face Oeste da Pedra do Cone (3º IIIsup), conquistada cerca de 2 meses depois, junto a César Delgado, e na qual foram utilizadas diversas proteções móveis, compostas por nuts, sempre que possível. Neste período, várias conquistas com o uso de material móvel já vinham sendo feitas também em outras partes do Estado, principalmente por André Ilha e “Tonico” Magalhães.
Fora de Petrópolis, as principais realizações deste grupo foram quase todas na cidade do Rio de Janeiro, como a Face Norte do Perdido do Andaraí, a Face Oposta do Escalavrado, os paredões Gênesis e Apocalipse, a Fissura Tropical, o Diedro Pégaso e os paredões Iemanjá e Ás de Espadas, além da Aresta Leste da Agulha Guarischi, em Niterói – primeira via de elevada dificuldade técnica a ser totalmente protegida por nuts. Aliás, graças à ação combinada dos escaladores locais e dos “cariocas” que então subiam a serra religiosamente, todas as semanas, o nome de Petrópolis ficou associado à vanguarda no uso de material móvel (nuts e friends), para proteção sempre que possível. Bem como também ficou associado à eliminação de pontos de apoio artificiais em escaladas já existentes, com base no conceito de “MEPA” – Máxima Eliminação de Pontos de Apoio, fator impulsionador de um grande salto no nível técnico geral, que consistia em se tentar fazer inteiramente, ou o mais em livre possível, vias conquistadas com um ou mais grampos usados como ponto de apoio direto na progressão. Um dos exemplos disto, no final dos anos 70, foi a modernização do Paredão Giabra, antes feito quase todo em artificial fixo de grampos e cabos-de-aço. Os cabos foram retirados e a grampeação foi toda remodelada de modo a possibilitar a escalada em livre. Com isto, o Paredão Giabra tornou-se a grande sensação do momento.
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