Nessa época, o equipamento de escalada era muito precário. Os calçados resumiam-se a “kichutes” e, para quem já estivesse habituado, botas militares. Durante muitos anos, até a chegada das atuais botas e sapatilhas de escalada em 1984, experimentou-se diversos tipos de calçados, como sapatinhos do tipo “Mocassin”, botas com solado de pneu de automóvel e diversos tênis do tipo “AllStar”, “Bamba“ e “Conguinha”, entre outros. Ainda na década de 70, quem tinha um pouco mais de sorte conseguia obter os solados “Vibram”, através de alguém que enviava do exterior. Este solado durava vários anos. Quando a bota acabava, arrancava-se o “Vibram” para reutilizá-lo em outra bota. Era preciso retirar o solado original desta e aplicar uma chapa de couro para, nela, aparafusar-se o “Vibram” que, certamente, ainda serviria para mais uma ou duas trocas.
As cordas de cânhamo eram as mais resistentes e, assim como as de sisal, eram por demais pesadas. Quando molhadas, praticamente tinha-se que jogá-las fora, pois a tendência da fibra vegetal seria apodrecer. No entanto, devido às dificuldades da época em se conseguir material, a corda era simplesmente secada ao sol; e seu uso, continuado. Até que se descobriu que a “Casa Tubarão”, no Rio, vendia cordas de nylon torcido, de ½” de diâmetro – mais leves, resistentes e seguras, mas que ainda não representavam o ideal. Bastavam algumas descidas através dela, com o freio oito, que a corda virava uma grande espiral.
As “cadeirinhas”, ou baudriers, eram conhecidas a partir de fotografias e livros importados. Assim, na base do improviso, ia-se tentando outros materiais paliativos que pudessem ser utilizados para fabricá-las, à moda brasileira. Utilizou-se desde cintas grossas, fixadas com arrebites, feitas com polias de máquinas industriais; e equipamento militar, utilizado por pára-quedistas, até cintos de segurança empregados em automóveis.
Conseguir um simples mosquetão era privilégio de poucos. Se não fossem os importados, conseguia-se obter apenas os de ferro, em forma de pêra e sem rosca, utilizados por marinheiros. Também, chegou-se a utilizar cadeados para afivelar os cintos e cujas chaves eram carregadas no bolso do escalador! E, por fim, o cabo extensor, ou de ancoragem, era uma simples cordinha de sisal ou nylon. Resumia-se, a isto, todo o material utilizado por uma cordada durante uma escalada.
Enquanto isso, os jovens aprendizes Jatobá e Joãozinho, autodidatas por opção, já haviam iniciado a conquista do Paredão JJ, que logo foi interditada. Existia um rigor muito grande, por parte do CEP, no sentido de fiscalizar as conquistas que estavam sendo feitas na cidade, principalmente em relação à qualidade da proteção que nelas estaria sendo empregada. Houve um dia em que Jatobá, naturalmente, cometeu um erro durante a grampeação da via e sofreu um pequeno acidente em função do desprendimento de um grampo, o que foi suficiente para que Paulo Lucio da Cruz Loureiro – então o Diretor Técnico do CEP – ordenasse a paralisação da conquista.
Não satisfeita com a medida de segurança adotada pelo CEP, a dupla, na “clandestinidade”, segundo eles próprios diziam, correu para conquistar o El Toro.
Nessa época, os conquistadores do El Toro já possuíam uma noção mais clara sobre a oferta de equipamentos modernos e sua utilização, apesar de estes ainda serem de difícil aquisição. Já sabiam que se escalava com botas mais maleáveis, tipo tênis, e os “cintos” de polia já haviam progredido para os feitos com nylon. Já existiam as cordas de nylon “entubado”, com a construção capa e alma, e, no “boca-a-boca”, as pessoas envolvidas com escalada passavam estas inovações umas às outras. A informação sobre a escalada era muito escassa e era comum os escaladores escreverem para os fabricantes internacionais de equipamento, solicitando que enviassem catálogos de seus produtos. Também, quando alguém eventualmente viajava para o exterior, trazia consigo catálogos, livros e algum equipamento de escalada. Desta forma, chegaram ao Brasil os primeiros utensílios próprios para este esporte, entre cordas, botas, mosquetões e outros.
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